Octavio Brandão 1977

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Centenário de Um Militante na Memória no Rio de Janeiro

Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros* - 1996

     A Livraria José de Alencar estava cheia de gente para conhecer um personagem famoso. A rapaziada da rua do Comércio foi toda naquela direção, onde a turma do Instituto se comprimia para ver de perto o primo do Dr. Théo, saber como era aquele homem misterioso que vivera tantos anos na Rússia, expulso do Brasil por Getúlio Vargas, porque era comunista.


 

     Imitando os gestos do primo Octavio, a Vera Brandão contara histórias incríveis dos alemães invadindo a Rússia, matando vinte milhões de pessoas. Convidou todo mundo para escutá-lo dizer, de memória, capítulos inteiros de Canais e Lagoas, recitar versos de Laura Brandão e contar histórias de suas experiências de exilado, “correndo o mundo todo”.

     A turma desceu em peso, e lá estava eu hipnotizada pela narrativa daquele homem tão comum, falando sem qualquer sotaque, como se nunca tivesse saído de Alagoas por mais de uma semana.

     Somente seus olhos nos olhavam de todos os cantos do mundo!

     Fascinada por suas histórias, passei a ouvi-lo na Livraria Ramalho, no Instituto Histórico, lia todos os artigos que publicava, e arranjava desculpas para pedir emprestados livros ou cadernos à Vera, e poder fazer perguntas ao hóspede que nunca se cansava de responder, ensinar e despertar a curiosidade dos jovens que o procuravam.

     Como tudo tem fim, acabou-se a visita de Octavio Brandão a Maceió, foram-se embora o ano de 60, o curso científico, a turma do Instituto, e a adolescência de tantas surpresas.

     Revejo, com olhos de exilada, um homem sozinho sentado num banco da Cinelândia, em janeiro de 1964.

     Num encontro de expatriados, me aproximo, relembro as conversas em Maceió e comento a euforia política das esquerdas no Rio. Do fundo de uma cela de prisão, sacudindo o frio da solitária que consumiu tanto tempo de sua vida, me olha e fala com a experiência de quem sente pelas dores dos ossos a aproximação do inverno: - Estamos no poder! – Irresponsabilidade política! O pretexto para o poder armado dar o golpe no povo brasileiro!

     Explicou-me longamente os equívocos das esquerdas, analisou a realidade do Brasil no contexto da Guerra Fria e falou de novos anos de chumbo sendo articulados nas conspirações golpistas da direita. Conversamos um pouco mais, cada um foi para seu lado, e nunca mais o vi. 

     Em março daquele mesmo ano, um irmão meu, Emmanoel, então da diretoria do Sindicato dos Bancários, conversou longamente com Octavio Brandão, também na Cinelândia, e chegou em casa impressionado com a certeza que ele lhe transmitira na iminência de um golpe.

     Só fui saber dele anos depois, na década de 70, pelas notícias trazidas por dois alunos, Carlos Walter e Afonso Carlos, sempre em conversas com ele em Santa Teresa. Por outro aluno, o Béo, continuei acompanhando de longe o desenrolar daquela existência.

     A leitura de Combates e Batalhas, e depois, a discussão daqueles episódios com Dr. Theo Brandão, Moacir Sant’ana ou Dr. Werter, me fizeram constatar que Octavio Brandão fazia parte de meu imaginário há muitos anos, convidando-me para uma conversa longa e responsável, da qual havia escapado sempre, dando maior atenção a outros interlocutores, à discussão de outros temas.

     Na Livraria Argumento, no Leblon, em dezembro de 1995, conheci Dionysa Brandão.

     Durante muito tempo minhas tentativas de contatá-la se haviam frustrado, até que desisti. Naquela noite, chegando muito tarde para o lançamento de A Trinca do Curvelo, sua filha Laura, minha conhecida de muitos e muitos anos, nos apresentou.

     De tanto conversar com a Dra. Nise da Silveira, no riso da mulher de 70 anos gostei da garotinha em quem a Dra. tantas vezes deu banho, na década de 20, enquanto Laura e Octavio Brandão enfrentavam a luta, tentando limpar o mundo da miséria das desigualdades. O encontro foi rápido, mas durou o bastante para ouvir dela que 1996 marcaria 100 anos de nascimento de seu pai e 65 da expulsão da família para o exílio.

     Uma livraria, a história de um exilado, alguém falando de outros tempos e outras paisagens, e o milagre de Proust se reproduziu. Eu podia correr em busca do tempo, para que ele não fosse perdido. Dionysa e as filhas, Elvia e seus admiradores na fila de autógrafos, todos se transfiguraram na minha turma do Instituto, 35 anos se apagando no escoar do tempo, e eu tinha outra vez 18 anos, correndo para conhecer Octavio Brandão.

     Eu podia tudo, eu queria tudo, e na mesma hora falei rápido:

     Vamos fazer o centenário de Octavio Brandão! [...]

*Antropóloga, Prof. aposentada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ.

Fonte: Octávio Brandão Centenário de um Militante na Memória do Rio de Janeiro, Org. Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros, 1996, UERJ.



 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 14 de agosto de 2021

A Estátua de Pushkin nas Ruas de Moscou nos Anos 1930

Carlos Walter Porto-Gonçalves* (30/09/2020)

Professor Carlos Walter Porto-Gonçalves


Por um desses acasos da vida tive a fortuna de ser vizinho de Otavio Brandão (1896-1980), alagoano de Viçosa, que se dizia Caeté por sua inquietude intelectual e política. Quando o conheci, em 1976, ele já se encontrava fora da militância política a que dedicara toda sua vida. Em 1916, Otávio Brandão fundara, junto com outros companheiros, a Confederação pela Libertação da Terra e do Homem, em Viçosa e, em 1922, o Partido Comunista, em Niterói, quando já morava no Rio de Janeiro. Sobre a fundação do PC, Otavio Brandão me confidenciara uma curiosidade: o 25 de março de 1922, data oficial da fundação do PC, é a data que ele chamava data de fundação histórica que ele diferenciava da data de fundação cronológica (qual?) em que, junto com outros companheiros, fundaram o Partido Comunista como “única maneira de implantar o anarquismo no Brasil”. Só depois é que soubera que anarquismo e comunismo não seriam a mesma coisa e, por isso, refundaram o PC em 25 de março, agora sim, data histórica e não cronológica. Otávio é uma figura ímpar que o Brasil bem merecia conhecer melhor. Ele, formado em História Natural no Recife, foi o primeiro brasileiro a descobrir que havia petróleo no Brasil. E fora desqualificado pelas elites de Alagoas com um argumento típico do que Nelson Rodrigues, mais tarde, chamaria de espírito de cachorro vira-lata: “se no Brasil não tem petróleo, logo em Alagoas é que vai ter?”. Assim, me contara o alagoano com espírito caeté, Otavio Brandão.

As histórias de Brandão são importantes para o conhecimento das esquerdas brasileiras. Já em 1926 publicara o que é a primeira interpretação da nossa história que se reivindica marxista-leninista, com seu livro Agrarismo e Industrialismo: ensaio marxista-leninista sobre a revolta de São Paulo e a guerra de classes no Brasil. Em 1928, como membro do BOC – Bloco Operário Camponês – se elegera vereador no Rio de Janeiro, junto com Minervino de Oliveira, marmorista de Magé que, em 1930, haveria de ser o primeiro candidato operário à presidência da República. E a proposta do BOC era de uma aliança de classe operário-camponesa que visava uma reforma agrária através de uma revolução burguesa que acabaria com “o latifúndio e o feudalismo no Brasil”. Em respeito à memória histórica da luta dos trabalhadores brasileiros, Luiz Inácio Lula da Silva, não é o primeiro candidato operário a Presidente da República, mas sim Minervino de Oliveira.

Otávio se encontrava preso por sua militância política quando da revolução de 1930 que levaria Getúlio Vargas ao poder. Contou-me ele que a anistia aos presos políticos do governo Washington Luiz não o alcançara e que “foi o único preso político que permaneceu preso após a revolução de 1930” e que seria extraditado. Contou-me Brandão que bem que tentou negociar que sua extradição fosse para algum país da América Latina. Não foi bem-sucedido. Tentou, ainda, negociar que fosse para a Alemanha, segundo ele, “para que pudesse estudar Marx e Engels diretamente em alemão”. Também não foi bem-sucedido. Acabou indo parar na União Soviética não sei por quais caminhos. Lá viveu entre 1930 e 1945, no auge do estalinismo. Aliás, O. Brandão nutria simpatias pelo grande líder Josef Stalin e nas conversas que tínhamos onde eu questionava várias facetas do estalinismo, ao final de sua vida, em nossas conversas, me concedera: “Stalin fora grande nos erros e nas virtudes”, dissera.

E dessas conversas é que pude desfrutar de uma revelação de Otavio que, talvez, nos dê uma pista de como o povo de Moscou vivera essa quadra histórica sob o comando de Stalin. Contou-me Brandão que, por volta de 1935, corria nas ruas da capital soviética uma piada sobre uma grande festa popular para homenagear Alexander Pushkin (1799-1837), considerado o maior poeta romântico russo. Segundo Brandão contando o que ouvira, a Praça Vermelha se apinhava de gente em torno de uma grande estátua coberta. Chegada a hora da cerimônia de homenagem, A Internacional foi cantada por todos os presentes e a estátua começou a ser descerrada. Logo no início, pode-se ver uma cabeleira com entradas agudas; logo em seguida, à medida que baixava o pano, as grossas sobrancelhas; logo abaixo o nariz e o bigode característicos de Josef Stalin. Feito o suspense, eis que aparece logo em seguida, entre os braços de Stalin, um livro de Pushkin. Justa homenagem!

O que me chama a atenção nessa anedota é, justamente, o fato de ser uma anedota que, como soe acontecer, costuma ser um bom indicativo do imaginário popular. O povo russo, quase sempre de fora dos debates entre estalinistas e anti-estalinistas, talvez aqui se apresente com toda a sutileza do inconsciente coletivo.

Todas as histórias aqui reunidas não são resultado de nenhuma pesquisa historiográfica, mas simplesmente fruto de um diálogo de dois amigos de gerações diferentes. Devo muito de minhas convicções a esse amigo, sobretudo por seu espírito Caeté que, pela inteligência de uma outra alagoana, a Professora Luitgarde Cavalcanti, me fez refinar minhas simpatias por esse Brasil com mais de 305 etnias/povos/nacionalidades indígenas, com suas mais de 274 línguas. E, mais, essa ideia se reforçava ainda com as lembranças do que Brandão não se cansava de dizer que, quando de suas responsabilidades diante do jornal A Classe Operária, se impunha a presença de correspondentes regionais do jornal “nos canaviais do NE, nos cacauais da Bahia, nos seringais da Amazônia” para que o partido tivesse uma visão da diversidade do desenvolvimento desigual e combinado da formação social do capitalismo no Brasil. Para quem, como eu, tinha uma formação em Geografia não deixava de ser um presente.

Numa época, como a nossa, em que os nacionalismos, à direita e à esquerda, voltam à balia talvez seja um bom momento de recuperarmos esse espírito Caeté e estarmos atentos ao colonialismo interno que costuma se esconder diante dos inimigos de fora para, reproduzir internamente, a colonialidade do saber e do poder. Afinal, até quando o chamado estado-nação poderá continuar a ignorar a diversidade de povos/etnias/nacionalidades que o habitam? Enfim, como o estado-nação volta à baila diante de um globalitarismo (Milton Santos) que não só aumentou a concentração de riqueza a níveis jamais vistos na história como, ainda, coloca em risco própria humanidade com o colapso ambiental que o acompanha, está na hora de reinventarmos o estado como plurinacional, como sugerem os ventos que vêm do mundo andino.

Fonte: https://iela.ufsc.br/noticia/estatua-de-pushkin-nas-ruas-de-moscou-nos-anos-1930

*Carlos Walter Porto-Gonçalves, geógrafo, autor de livros sobre geografia social.

 

 

sexta-feira, 25 de junho de 2021

CONTRA A CHACINA - JUNTO COM OS TRABALHADORES E O POVO POBRE DO JACAREZINHO CONTRA TODO TIPO DE OPRESSÃO E EXPLORAÇÃO

Nota do Centro Cultural Octavio Brandão (CCOB)

Junho/2021

A população oprimida, os trabalhadores explorados e a juventude sem oportunidades do Jacarezinho, em sua maioria negros e pardos, ainda vive o pesadelo de ter visto um banho de sangue na comunidade, com corpos dilacerados pelas ruas e vielas onde brincam seus filhos, onde proseiam os adultos e onde descansam os mais idosos sentado nas portas de suas casas.



Essa ação foi orquestrada pelo governador empossado Claudio Castro e pelo Presidente Jair Bolsonaro que se reuniram no dia anterior para dar o “ok” para a chacina. Visam não só enfraquecer um território não controlado pelas milícias, mas principalmente levar medo e terror a população pobre onde, fruto do desemprego e da atuação desastrada dos governos municipal, estadual e federal na pandemia, aumenta a cada dia a miséria e, junto com ela, a revolta contra esses governos, a exploração e a opressão.

Tentaram justificar a chacina com o argumento de combate ao tráfico de drogas e de que só morreu bandido. Na verdade, a operação policial de 06 de maio último obedeceu a uma lógica de extermínio e não tem a mínima preocupação com a vida dos moradores do local. Todos são considerados suspeitos ou criminosos. São verdadeiras operações de guerra, com armamento pesado, em áreas densamente povoadas.

O Jacarezinho já abrigou parte considerável da mão de obra do grande complexo industrial que havia no bairro vizinho do Jacaré e uma parte dos operários da gigante GE. É uma das maiores favelas do Rio de Janeiro, com tradição de lutas operárias e por melhores condições de moradia, mas com a desindustrialização de nosso estado muitas fábricas fecharam e o Jacarezinho viu crescer a miséria, o desemprego e a fome entre seus moradores. Esse cenário criou as condições para que parcela da juventude negra, parda, pobre e sem perspectivas e emprego, visse no tráfico, infelizmente e tragicamente, uma alternativa para melhorar sua vida de abandono e carências. Tráfico esse que serviu como pretexto para a sanguinária operação policial de 06 de maio.

A criminalização da pobreza justifica a existência de um aparato policial que cresce cada vez mais, e é usado para reprimir os trabalhadores e o povo explorado e oprimido das periferias e favelas, se estes decidirem ir pras ruas, fazer greve, reivindicar melhores salários e lutar por melhores condições de vida, moradia, saneamento básico saúde, alimentação etc. As operações policiais não visam proteger esses moradores, pelo contrário, aterrorizam a comunidade com invasão de casas e abordagens violentas que muitas vezes resultam em assassinatos.

Setores dessa mesma polícia, que são cada vez maiores, também quiseram uma fatia maior do bolo e criaram o seu próprio negócio corrupto e ilegal: as milícias. Quanto mais comunidades as milícias controlarem, mais rendosos serão os seus empreendimentos e mais representantes e aliados terão no Estado brasileiro. Estudos recentes demonstraram a preferência do aparelho policial em fazer operações que acabam por favorecer a expansão das milícias. Essas milícias têm relacionamento íntimo com políticos e governantes, como por exemplo a família Bolsonaro, que nomeia cargos nos seus gabinetes e faz homenagens a líderes milicianos

Diante da falta de fundamentação jurídica, social e militar para a ação policial que caracterizou uma verdadeira chacina, o Centro Cultural Octavio Brandão (CCOB)¹ vem se somar às vozes que se colocam ao lado da luta e da organização independente dos trabalhadores explorados, da população oprimida e da juventude sem horizontes do Jacarezinho para:

1. exigir a apuração da chacina, sem segredo de justiça, com a presença do movimento comunitário e das entidades de direitos humanos da sociedade civil para não se repetir o arquivamento e a impunidade dos envolvidos, como na chacina do Falet, em fev/2019.

2. Contra a barbárie para onde o capitalismo e o Estado brasileiro estão nos empurrando, exigir a presença dos serviços públicos dentro da comunidade, com creche e escola para todas as crianças e adolescentes com a garantia de atividades sociais e culturais; saneamento básico, calçamento, iluminação e revitalização dos hospitais públicos da região.

3. um plano piloto de obras públicas na área formulado com os moradores (estendido depois para as outras comunidades) que gere emprego e renda para os moradores.

(1) - O CCOB funciona ao lado do Jacarezinho e já organizou diversas rodas de samba com o saudoso Barbeirinho, sambista gravado por Zeca Pagodinho e Bezerra da Silva e que foi presidente da Unidos do Jacarezinho. O CCOB, durante a pandemia fez cinco atividades de entrega de cestas alimentícias, máscaras contra o contágio e panfletos políticos denunciando o governo Bolsonaro e a desigualdade produzida pelo capitalismo como os responsáveis pelas milhares de mortes que se abatem principalmente sobre a população mais pobre, moradora das favelas e das periferias.